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Produzir com propósito: a trajetória agroecológica do Sítio Colibri

Produzir com propósito: a trajetória agroecológica do Sítio Colibri
  • Publicadonovembro 3, 2026

Na Linha Cedro, em Encantado, o cuidado com a terra e a diversidade de alimentos cultivados contam uma história que vai muito além da produção agrícola. No Sítio Colibri, da família Castoldi, cada canteiro e nova muda simboliza o compromisso de oferecer alimentos saudáveis, frescos e produzidos de forma orgânica.

A história do empreendimento é marcada por desafios e pela vontade de oferecer produtos de qualidade, sem agrotóxicos, de uma forma sustentável. A propriedade pertence a Nery Maria Castoldi. Os filhos Edson, casado com Daiana; e Denise, casada com César Horn, são os responsáveis por conduzir o Sítio Colibri.

Em 2018, porém, a família enfrentou uma das maiores dores. Juraci José Castoldi, esposo de Nery e pai de Edson e Denise faleceu em decorrência de um linfoma. A perda levou os familiares a repensarem não apenas a relação com a propriedade, mas também os caminhos que desejavam seguir.

A decisão de investir em uma produção livre de agrotóxicos começou a ganhar forma quando Daiana assistiu a uma reportagem do programa Globo Rural sobre uma propriedade da região, que ficava em Estrela, e produzia alimentos orgânicos. A ideia de instalar uma estufa de morangos despertou o interesse da família. No fim de 2019, o projeto começou a ser definido: a produção de morangos em estufa e o cultivo de meio hectare de pitayas seriam os primeiros passos de uma nova fase.

“Fomos entendendo o que era cultivo agroecológico, o que era preciso fazer de diferente e trazendo isso desde o início do projeto. O Sítio, desde a metade de 2019, não utilizou mais nenhum agrotóxico na propriedade”, explica Daiana.

O manejo passou a priorizar práticas como roçadas, capinas e outros cuidados para manter a produção sem produtos químicos. Mais do que uma mudança na atividade agrícola, a escolha também refletia uma preocupação com a própria alimentação e com a saúde de quem receberia os produtos.

A proposta conquistou clientes que valorizam a qualidade, a diversidade e os produtos orgânicos. Com o passar dos anos, o relacionamento direto com o público tornou-se um dos pilares do negócio. Atualmente César é quem mantém boa parte desse contato no dia a dia, realizando as entregas para as famílias consumidoras. Daiana, Denise e Edson ajudam no plantio, colheita, organização e planejamento financeiro.

Desafios e reconstrução

As enchentes de 2023 e 2024 provocaram grandes prejuízos, destruindo a estufa, danificando canteiros e comprometendo a estrutura produtiva e as casas da família. Além das perdas materiais, foi necessário recuperar o solo e reorganizar o cultivo. Sem condições financeiras para manter os funcionários, a reconstrução passou a depender ainda mais do trabalho familiar.

Diante das dificuldades, Daiana e Edson retornaram a Santa Catarina em busca de trabalho, enquanto Denise e César mantiveram as atividades no sítio, além disso, Denise continuou trabalhando meio turno fora. A diversificação de cultivos, com hortaliças, verduras e flores comestíveis, tornou-se essencial para retomar as vendas e gerar renda em menos tempo.

Em julho de 2025, Daiana e Edson decidiram voltar à propriedade para se unir aos familiares na reconstrução. O apoio dos clientes, que se mobilizaram para ajudar, reforçou os laços construídos ao longo dos anos, com o apoio e o carinho de Nery, mãe, sogra e avó, que acompanha a trajetória da família.

Diversidade e produção sustentável

Atualmente, o Sítio Colibri disponibiliza cerca de 120 itens, entre verduras, legumes, frutas, chás, flores comestíveis, geleias e produtos orgânicos de agroindústrias parceiras de outros municípios. A rede de fornecedores, formada por outras agroindústrias da região e da Serra Gaúcha, amplia a variedade oferecida e fortalece a relação de confiança com os consumidores.

“Conseguimos ser essa referência para os nossos clientes, de ter essa rede”, afirma Daiana. A intenção é ampliar gradualmente a produção, conforme a recuperação da propriedade e as condições climáticas permitirem. “Tudo o que colocamos no catálogo vende. Quanto mais diversidade tivermos, melhor vamos atender nossos clientes”, observa.

Outro passo importante é a certificação orgânica. Desde 2022, a produção era certificada por auditoria, modelo cujo custo elevado levou a família a procurar uma alternativa coletiva. Em setembro de 2026, foi criado o grupo de agroecologistas Sementes do Amanhã, o qual o Sítio Colibri também faz parte, com o objetivo de ingressar na Rede Ecovida de Agroecologia, presente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná.

A iniciativa permite a troca de experiências, o acompanhamento das práticas entre agricultores e a construção coletiva de conhecimento, seguindo as exigências da regulamentação e mantendo a certificação da propriedade. Para Daiana, o aprendizado compartilhado fortalece quem escolheu produzir de maneira agroecológica. “É isso que nos motiva: oferecer produtos de qualidade e frescos”, resume.

Do campo à mesa

A comercialização ocorre diretamente com os consumidores, com entregas às terças-feiras, quintas-feiras e sábados em Encantado e, às quintas-feiras, também em Roca Sales. Os pedidos são organizados por grupos de WhatsApp e catálogo digital. A família também desenvolveu, com auxílio de inteligência artificial, um aplicativo para facilitar as encomendas, planejar as entregas e controlar a parte financeira.

A fidelidade dos clientes é um dos principais estímulos para continuar, mesmo diante das dificuldades, principalmente em decorrência das enchentes. “O continuar foi muito pelos clientes. A gente pensa muito nas pessoas, que também esperam algo de nós”, conta Denise. Para ela, a realização está em saber que os alimentos chegam às mesas com o propósito e o cuidado com que foram cultivados.

Desde 2025, o sítio também desenvolve ações de turismo rural, em parceria com empresas de receptivo e instituições interessadas em conhecer a agroecologia. A iniciativa busca aproximar o público da realidade do campo, compartilhando conhecimentos sobre produção, sustentabilidade e os desafios da atividade.

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