Funerária Mazzarino: cuidado, respeito e legado familiar há mais de cinco décadas
Há profissões que exigem técnica. Outras, sensibilidade. Algumas pedem coragem. Mas poucas reúnem tudo isso ao mesmo tempo como o trabalho funerário. Em Encantado, a história da Funerária Mazzarino é também a história de uma família que há mais de cinco décadas transformou o cuidado com as despedidas em missão de vida.
Fundada em setembro de 1973 por Talis Mazzarino (falecido em 2024) e Lorena Maria Mazzarino, a Funerária Mazzarino completa 53 anos carregando muito mais do que um nome tradicional, construíram ao longo do tempo confiança e um legado que atravessa gerações.
Hoje, quem segue à frente do trabalho é o filho do casal, Ramon Mazzarino, que há 34 anos se dedica à profissão. Para ele, que é diretor funerário, o maior significado do trabalho está em algo simples e profundo: “Ser a ponte entre a dor e o conforto.”
A Funerária Mazzarino sempre funcionou no mesmo endereço: na esquina da rua Tiradentes com a Flores da Cunha, no Centro de Encantado. No início, a funerária funcionava onde hoje é casa onde reside Dona Lorena. Eram quatro paredes de tijolos, no lugar do cimento era barro, depois, com o tempo Talis alugou uma casa, na outra quadra, para colocar os caixões. Desmanchou o local onde era a funerária e fez a casa da família. Depois os caixões vieram para a antiga casa que pertencia ao pai de Lorena, Theobaldo Filter, onde atualmente é a funerária. Com o tempo, o espaço foi ampliado, transformado e modernizado até chegar à estrutura atual.
Uma trajetória construída com coragem
Antes de abrir a funerária, Talis Mazzarino, natural de Encantado, trabalhou em várias áreas. Foi mecânico da Ford, teve lavanderia, mercearia em Curitiba e serraria em Ponta Grossa. Depois de um período em Ponta Grossa, Talis e Lorena decidiram voltar para Encantado devido à doença do pai dela. Foi então que surgiu a sugestão de um tio, irmão de Lorena e padre: abrir uma funerária.
No começo, o trabalho era completamente diferente do que se conhece hoje. “Era praticamente uma loja. A família vinha, comprava o caixão, as flores e coroas, levavam e organizavam tudo”, conta Ramon.
Recorda que quando começou a ajudar o pai, ainda eram as irmãs religiosas que trabalhavam no hospital quem preparavam os corpos no quarto onde a pessoa tinha ido a óbito. Depois criaram o chamado “morgue” ou necrotério, onde inicialmente as enfermeiras realizavam os procedimentos. Com o tempo, as mudanças nas normas hospitalares fizeram com que a própria funerária assumisse essa responsabilidade. “Quando o falecimento acontecia em casa, nós arrumávamos na própria residência. Não existia laboratório como hoje”, recorda.
Foi Ramon quem começou a incentivar a modernização da estrutura. Há cerca de 12 anos, a Funerária Mazzarino passou a contar com laboratório próprio, oferecendo preparação especializada, maquiagem e conservação — possibilitando inclusive que familiares distantes consigam chegar a tempo para a despedida. Para isso, buscou qualificação profissional em Curitiba, referência nacional na área de tanatopraxia. Durante uma semana, participou de um curso intensivo teórico e prático dessa especialidade para aprender técnicas de conservação e preparação de corpos. “Hoje é possível manter o corpo por até 30 dias, caso for necessário”, comenta.
Na funerária, o atendimento é 24 horas por dia, 365 dias por ano, onde todos os colaboradores estão aptos a fazerem esse trabalho de preparo, talvez seja justamente por isso que Ramon acredita que a profissão exige muito mais do que preparo técnico. Ao longo das décadas, ele aprendeu que cada família reage de uma forma diferente diante da perda. Algumas precisam de silêncio. A maioria de orientação. Há quem descarregue a dor em revolta.
Mesmo com tantos anos de experiência, Ramon admite que algumas situações continuam difíceis. Principalmente quando envolvem crianças. “Fico dias pensando nisso.” Nesses casos, a família Mazzarino mantém uma tradição herdada de Talis: cobrar apenas o preço de custo. “Nos colocamos no lugar da família sempre, mas quando se trata de anjinhos (crianças) é mais difícil, pois todos temos sentimentos e filhos.”
Para Ramon, um dos papéis mais importantes da funerária é justamente ajudar as pessoas em um dos momentos mais difíceis da vida. “A maioria nunca passou por isso e fica perdida. Tentamos orientar e amenizar a dor.”
Hoje, a empresa conta com quatro funcionários diretos, entre eles Maurício, filho de Ramon, representante da nova geração da família. Mais do que ensinar técnicas, Ramon tenta transmitir aos colaboradores os valores deixados por Talis. “Meu pai falava muito sobre honestidade e crédito. Ele sempre dizia, tu não precisa ter dinheiro, mas precisa ter crédito”.
Vida comunitária
A vida comunitária e a solidariedade também sempre fizeram parte da família. Lorena participou por muitos anos e ainda participa de Clube de Mães. Talis era sócio de várias comunidades, sendo essa uma forma de ajudar e contribuir também. Jogava bolão. Foi sócio fundador do Clube de Tiro e Caça, do Clube Comercial, do Clube Recreativo (tendo sido ecônomo com apoio da esposa Lorena). Tinha o costume de ajudar, sempre teve a caridade presente em sua vida.
Atualmente, apesar da rotina intensa, Ramon também encontra espaço para outras paixões. Participa do CTG Giuseppe Garibaldi desde os seis anos de idade. Dançou, declamou, competiu no laço, integrou patronagens e hoje ocupa o cargo de patrão da entidade. Atualmente, também atua com garimpo de pedras semipreciosas — atividade que define como um hobby levado a sério.
Pai de cinco filhos — Eduarda, João Vitor, Maurício, Ana Clara e Talis Neto — Ramon vê na continuidade da família o maior símbolo do legado construído por Talis e Lorena. “Eu me cobro muito para continuar o que ele plantou”, diz ao falar do que aprendeu de seu pai.
Ao olhar para trás, depois de mais de meio século de história, Ramon diz que o que mais o orgulha na trajetória até aqui é a credibilidade. “O nome que nossa empresa tem hoje, é graças a um trabalho realizado com acolhida, carinho, respeito e ética desde sua fundação ”, diz com o orgulho.



