Uma vida movida por pessoas e coragem: a trajetória de Rejane Bicca
Rejane Griebler Bicca aprendeu cedo que vender vai muito além de oferecer um produto, inclui o valor de uma boa conversa, da confiança e da capacidade de perceber o outro. Nascida em São Martinho, no Noroeste do Rio Grande do Sul, é filha de um pedreiro e de uma enfermeira. Tem uma irmã gêmea, Renaide, e cresceu em uma família do interior, com valores religiosos, disciplina e muito trabalho. É casada há mais de 23 anos com Jairo Bicca e é mãe de Brayan, de 20 anos, e de Joana, seu “anjo especial”, de 13 anos.
A infância foi simples, mas repleta de aprendizados. Os pais vendiam roupas de casa em casa e Rejane acompanhava as vendas, demonstrando, segundo eles, uma habilidade natural para conversar com os clientes. Também vendia ameixas colhidas no pomar da família, em pequenas sacolas, para conseguir seu próprio dinheiro.
Do pai, herdou o exemplo de responsabilidade e segurança financeira. Da mãe, uma lição que carregaria para toda a vida: mulher precisa ser independente. Viu sua mãe voltar a estudar concluindo o 1º e 2º graus, hoje ensino fundamental e médio, e depois fazendo o curso técnico em enfermagem, evidenciando a personalidade discreta, religiosa e acolhedora, e tornando-se a principal inspiração profissional de Rejane.
Coragem de construir o próprio caminho
“Sempre fui uma criança muito ativa e acelerada”, diz Rejane sobre sim mesma. Desde cedo, havia nela uma vontade precoce de conhecer o mundo e construir o próprio caminho. Aos 14 anos, começou a trabalhar em um despachante com o primo. Depois, foi promotora de vendas de uma ervateira.
Em 1999, surgiu a oportunidade que mudaria sua trajetória. Aos 17 anos, terminou o segundo grau em uma sexta-feira. Dois dias depois, no domingo, embarcou com o pai em uma viagem rumo a Lajeado, distante cerca de 400 quilômetros de sua cidade natal. A viagem foi feita de carona em um caminhão de leite que seguia até Teutônia, e assim Rejane ficou em Lajeado para começar uma nova vida.
O primeiro emprego foi na Padaria Kipper. A experiência também representou uma descoberta de um universo que, até então, parecia distante. “Não sabia que existiam tantas guloseimas, pães diferentes. Na minha casa nunca faltou comida, mas para mim só existiam o pão de casa, a cuca e a bolacha pintada que nós mesmos fazíamos”, conta.
Um ano depois, prestou vestibular para Comunicação Social e começou a trabalhar no jornal O Informativo do Vale, inicialmente como vendedora de assinaturas, percorrendo quilômetros a pé, de casa em casa. Mais tarde, passou ao departamento comercial, onde precisou aprimorar a argumentação. A experiência abriu portas para novas oportunidades.
Uma carreira na área da comunicação
Rejane também participou do início da trajetória do jornal A Hora, quando a empresa começou em Santa Clara do Sul. Segundo ela, foi uma experiência especial acompanhar de perto a construção de uma empresa, suas estratégias e os desafios de uma equipe pequena, na qual todos se sentiam parte do processo.
Um tempo depois retornou ao O Informativo. Em 2012, recebeu um convite de Antônio Alberto Lucca para trabalhar no Jornal Opinião, que naquele período havia sido adquirido pelo Grupo Encantado de Comunicação. Aceitou o desafio, principalmente pela possibilidade de atuar profissionalmente na cidade onde vivia. Permaneceu até 2021, quando a pandemia provocou mudanças profundas no mercado e em sua trajetória.
Foi então que decidiu empreender e abriu a MAIS Comunicação. Dois anos depois, em 2023, recebeu um novo convite para retornar ao A Hora, desta vez para integrar o departamento comercial da sucursal de Encantado, voltado à parte alta do Vale.
Formada em Marketing, Rejane resume sua principal vocação de maneira simples: “Minha melhor versão é trabalhar com pessoas”.
Vender é, antes de tudo, conversar
Ao longo de mais de duas décadas de experiência, desenvolveu uma convicção: “Venda não é sobre produtos, é sobre pessoas”, afirma Rejane. Para ela, cerca de 80% de uma venda está na conversa e os outros 20% se concretizam no negócio. Nesse processo, o relacionamento é fundamental. Sem conexão, sem escuta e sem confiança, a venda não acontece.
Gosta de conhecer pessoas e procura enxergar, por trás de cada empresário(a), o ser humano que existe ali. “Não romantizar a vida é necessário”, pondera. “Às vezes, menos razão e mais emoção podem fazer a diferença. Pessoas não são, elas estão. Quando seguimos esse raciocínio, compreendemos mais as ações do outro.”
Essa capacidade de ouvir também está, segundo ela, entre os diferenciais femininos no mercado. Rejane acredita que as mulheres são dinâmicas e mais sensíveis ao outro, justamente por estarem mais predispostas a perceber sentimentos e contextos.
Entre desafios, liderança e aprendizados
No início da carreira, Rejane também enfrentou situações de resistência por ser uma mulher jovem atuando na área comercial. Uma frase ficou marcada: “Vou fazer um anúncio contigo para te ajudar”. Hoje, ela interpreta aquela situação de outra maneira. Reconhece que a falta de maturidade e de imposição também poderia ter influenciado a percepção daqueles clientes.
Para ela, experiência profissional também significa aprender a reconhecer o próprio valor. Posicionamento não precisa ser agressividade, mas clareza sobre aquilo que se oferece e sobre o lugar que se ocupa.
Quando fala sobre igualdade de gênero, Rejane defende mulheres mais firmes, conscientes e preparadas para ocupar espaços profissionais e de liderança. Mas faz uma ressalva: “Ser forte não é ser prepotente. É ser realista, analítica, sempre com respeito ao direito das duas partes.”
Na sua visão, o mercado precisa de mais mulheres em posições de liderança justamente pela capacidade de trazer empatia para ambientes que muitas vezes são excessivamente orientados pela razão. “Não podemos perder a nossa essência feminina. Não precisamos ser frágeis, nem por isso omissas. Tudo tem o meio-termo e o bom senso.”
Se a profissão ensinou Rejane a ouvir pessoas, a maternidade ensinou algo ainda mais profundo: a enxergar além do que os olhos conseguem ver. Joana, sua filha de 13 anos, é portadora da Síndrome de Charge, é autista, não enxerga e depende integralmente dos pais para cuidados físicos e alimentação. A descoberta da condição da filha foi um grande baque para a família. Com o tempo, porém, Joana transformou a maneira como Rejane percebe a vida. “Ela me devolveu a vontade de valorizar as pequenas coisas, a enxergar com o coração o que os olhos não veem.”
Texto: Gisele Feraboli/Jornal Opinião
Foto: Arquivo Pessoal
