Delegada relata desafios e conquistas da liderança feminina
“Algumas pessoas chegam na delegacia procurando o delegado e se frustram quando se deparam com uma mulher.”
O Jornal Opinião lança o quadro “Lugar de Mulher”, um espaço editorial dedicado a dar visibilidade às mulheres que ocupam cargos de liderança e decisão nas diferentes esferas de poder. Em áreas historicamente dominadas por homens, como a segurança pública, a política, o Judiciário, a gestão e a administração pública, elas vêm rompendo barreiras, enfrentando preconceitos e transformando realidades por meio do trabalho, da competência e da representatividade.
Mais do que contar trajetórias profissionais, o quadro busca mostrar histórias reais de mulheres que exercem autoridade sem perder a sensibilidade, que lideram sem abrir mão da empatia e que ajudam a construir uma sociedade mais justa a partir do exemplo. Para inaugurar o projeto, a entrevistada é a delegada Dieli Caumo, titular da Polícia Civil de Encantado.
Uma mulher à frente da segurança pública
Atuar na segurança pública ainda é um desafio que carrega marcas históricas de desigualdade de gênero. Mesmo assim, a presença feminina cresce de forma constante nas forças policiais brasileiras.
Segundo a delegada Dieli Caumo, atualmente as mulheres representam cerca de 25% a 30% do quadro de delegadas da Polícia Civil, além de ampliarem sua participação como agentes nas polícias Civil, Militar e Federal. Para ela, ocupar esse espaço é motivo de orgulho e também de responsabilidade. “A segurança pública ainda é um ambiente muito masculino, mas as mulheres estão ganhando espaço e ocupando mais cargos. É muito representativo ver esse crescimento.
Sabemos que precisamos tanto de homens quanto de mulheres. É uma carreira onde há lugar para todos”, afirma.
A delegada destaca que a diversidade fortalece o trabalho policial. Enquanto homens e mulheres atuam lado a lado, diferentes visões contribuem para decisões mais completas, humanas e eficazes. “As mulheres têm um olhar um pouco mais sensível para algumas situações. Isso faz diferença no atendimento, na gestão e na forma de conduzir muitos casos”.
Resistência, preconceito e superação
Mesmo com os avanços, o preconceito ainda se manifesta no cotidiano da profissão. A delegada relata que já enfrentou situações de resistência simplesmente por ser mulher. “Algumas pessoas chegam na delegacia procurando o delegado e se frustram quando se deparam com uma mulher. Isso acontece com vítimas e até com suspeitos”, conta.
Em determinadas ocorrências, inclusive durante atendimentos em flagrante, a autoridade feminina chegou a ser questionada. “Já aconteceu de o suspeito dizer que queria falar com o delegado, mesmo eu estando ali. Quando eu dizia que era a delegada, ele respondia que queria falar com ‘o’ delegado. Isso mostra como ainda existe a ideia de que cargos de decisão deveriam ser masculinos.” Apesar disso, Dieli afirma que essas situações não enfraquecem sua atuação, ao contrário, reforçam a importância da presença feminina nos espaços de poder.
Avanços
Ao olhar para trás, a delegada reconhece o quanto a instituição evoluiu nas últimas décadas. Ela lembra das professoras e delegadas que ingressaram na Polícia Civil há 20 ou 30 anos, quando os desafios eram ainda maiores. “Se hoje, em 2026, ainda enfrentamos algumas dificuldades, imagino como era naquela época. O avanço é imenso. Ainda temos muito a conquistar, mas já caminhamos muito.” Para ela, a mudança cultural é gradual, mas constante, impulsionada pela presença feminina cada vez maior nas forças de segurança.
O olhar feminino e o enfrentamento à violência doméstica
Um dos campos em que essa transformação se torna mais evidente é no atendimento às vítimas de violência doméstica, uma demanda crescente em todo o país. Segundo a delegada, o aumento dos registros está diretamente ligado ao trabalho de conscientização, divulgação e fortalecimento da rede de proteção. “Cada vez mais a Polícia Civil está envolvida no enfrentamento à violência doméstica. As mulheres estão procurando ajuda, denunciando mais.”
Nesse contexto, a presença feminina na delegacia faz diferença. “Quando a vítima chega e encontra uma policial ou uma delegada mulher, muitas vezes se sente mais acolhida. Conseguimos enxergar não só o crime, mas todo o contexto: os filhos, a família, o histórico daquela mulher.”
Ela ressalta que esse olhar contribui não apenas para o acolhimento, mas também para investigações complexas. “O olhar da mulher traz benefícios para a polícia como um todo e para a segurança pública em geral.”
Representatividade que inspira
Para a delegada Dieli, ocupar um cargo de liderança vai além do exercício profissional. Trata-se também de inspirar outras mulheres. Segundo ela, quando meninas, adolescentes e jovens veem mulheres em posições de poder, passam a acreditar que também podem chegar lá. “Eu me inspirei em mulheres que ocupavam esse tipo de cargo. Eu olhava e pensava: é possível. Quando uma criança ou adolescente vê uma mulher num cargo importante, ela consegue se enxergar naquele mesmo lugar alguns anos depois.”
Ao encerrar a entrevista, a delegada deixa um recado direto às mulheres que desejam ingressar na segurança pública. “Se esse é o teu desejo, se é o que tu realmente quer, tem lugar pra ti aqui. Tem lugar na segurança pública, tem lugar na Polícia Civil para as mulheres. Continua, estuda, faz o que precisa ser feito. A gente está esperando muitas mulheres na Polícia Civil.”
texto: Luís Gustavo Bettinelli
