Whatsapp
Encantado

Um século de histórias: a vida inspiradora de Dona Dolfina

Um século de histórias: a vida inspiradora de Dona Dolfina
  • Publicadomarço 28, 2026

Trajetória centenária de fé, simplicidade e uma vida dedicada à família e à comunidade se entrelaça com a do município, revelando memórias, valores e exemplos que inspiram gerações

 

Aos 100 anos, Dona Dolfina Beneduzzi Del Ponte é sinônimo de alegria, lucidez e gratidão. Moradora da comunidade de Palmas, em Encantado, ela celebra um século de vida cercada pela família e por histórias que atravessam gerações. Questionada sobre o segredo da longevidade, responde com leveza e sabedoria: “Ser feliz, saber viver bem, conhecer pessoas, se dar bem e ser carinhosa com todos, rezar bastante e também tomar um pouquinho de vinho”, diz, sorrindo.

 

Nascida em 24 de agosto de 1925, na Linha Alegre, interior de Encantado, Dona Dolfina construiu uma vida pautada pelo trabalho, pela fé e pelo convívio comunitário. É mãe de Jandir, Valdir e Maria Dosolina, avó de quatro netos e bisavó de quatro bisnetos. Viúva há cerca de 30 anos de Alexandre Del Ponte — natural da Linha São Jacó, então pertencente a Arroio do Meio, hoje município de Capitão —, carrega consigo memórias de uma vida simples, mas repleta de significado.

 

Solidariedade em meio à enchente histórica

Um dos episódios mais marcantes recentes ocorreu durante a maior enchente da história de Encantado, em maio de 2024. Por viver em um ponto mais alto de Palmas, Dona Dolfina, ao lado da filha Maria Dosolina, que a cuida, abriu as portas de sua casa para acolher vizinhos atingidos pela cheia. Durante alguns dias, até que a água baixasse e as pessoas pudessem voltar para casa, 28 pessoas encontraram abrigo na residência centenária.

 

A residência onde vivem, em estilo enxaimel, é parte viva da história local. Construída na década de 1880 por Adam Zimmermann, pertencia a Albino Hoppe, de quem o casal Del Ponte adquiriu o imóvel há 73 anos. Inicialmente, após o casamento, moraram na Linha São Jacó, em Capitão, e, algum tempo depois, mudaram-se para a atual propriedade. Ao longo dos anos, a casa passou por reformas, mas mantendo a originalidade.

 

Fé, canto e participação comunitária

Dona Dolfina sempre teve uma vida ativa. Caminhou até os 99 anos e, hoje, apesar de precisar de auxílio para locomoção, demonstra gratidão pela saúde e pela trajetória vivida. Apaixonada por música, participou durante anos do coral da comunidade de Palmas e ajudava a conduzir os cantos nas celebrações da igreja. Católica, foi integrante do Apostolado da Oração, sendo uma das fundadoras do grupo na localidade e também vice-presidente. “Era uma turma unida”, recorda.

 

O gosto pelo canto nasceu ainda na juventude, nos tradicionais filós entre vizinhos, quando famílias se reuniam para cantar, conversar e confraternizar — um costume que marcou época na comunidade e na região. Além disso, mantém até hoje sua rotina de fé: reza diariamente e acompanha a missa pela televisão.

 

Amor pelo futebol e pela vida no campo

Outra paixão que atravessou gerações foi o futebol. Torcedora do União de Palmas, Dona Dolfina começou a acompanhar os jogos ao lado do marido, que atuava como jogador. Mesmo após a morte dele, manteve o carinho pelo clube, transmitindo esse amor à filha. “Quando posso, sempre acompanho os jogos”, conta Maria. Alexandre também jogou por equipes como o Palmense e o Canarinho, de Arroio do Meio, permanecendo nos gramados até os 50 anos.

 

A vida do casal sempre esteve ligada à agricultura. Trabalharam com a criação de suínos e gado leiteiro, além do cultivo de soja, frutas e verduras para o sustento da família. Produziam ainda queijos para venda, contribuindo com a renda doméstica. Na época, eram associados da Cosuel, hoje Dália Alimentos, guardando lembranças especiais de eventos da cooperativa.

 

Legado de valores e olhar para o presente

Para a família, a presença de Dona Dolfina é motivo de orgulho e gratidão. “É uma alegria termos a mãe ainda conosco. Ela nos ensinou, acima de tudo, o respeito e a importância de rezar todos os dias”, destaca a filha Maria.

Ao comparar o passado com os dias atuais, Dona Dolfina reconhece avanços importantes, especialmente na área da saúde. “Hoje está muito melhor, porque o médico vem em casa”, observa. As idas ao Centro de Encantado eram raras, quando jovem, geralmente apenas para consultas médicas ou odontológicas, já que o acesso era mais difícil, por estradas de chão.

 

Entre as lembranças recentes, um momento a emocionou profundamente: o içamento da cabeça e dos braços do Cristo Protetor, símbolo que hoje projeta Encantado para o mundo. “Foi emocionante”, diz. Aos 100 anos, Dona Dolfina segue sendo exemplo de fé, simplicidade e amor à vida — uma história que inspira e reafirma a força das raízes, da comunidade e dos valores que atravessam o tempo.

Dona Dolfina com os filhos Jandir, Valdir e Maria Dosolina
Dona Dolfina com filhos, netos e bisnetos

Fotos: Gisele Ferabooli/arquivo pessoal

-+=