Casa histórica mantém viva a trajetória dos primeiros imigrantes de Encantado
Família compartilha lembranças, costumes e contribuições que ajudaram a formar o município
Uma das primeiras casas de Encantado ainda resiste ao tempo. Localizada no bairro Lambari, a antiga casa de madeira, iniciada sua construção em 1882, ocupa um lugar especial nas terras que hoje continuam pertencendo aos descendentes de um dos primeiros imigrantes encantadenses: Giovanni Bratti.
Atualmente, quem reside ao lado da antiga casa e guarda com carinho diversos objetos dos bisavôs Giovanni e Angela Talamini é a professora aposentada Zoraide Ana Luzzi. Para contar essa rica história de seus descendentes, Zoraide convidou as suas irmãs Zaida Inês Luzzi e Maria Ângela Luzzi Cornelli e as primas Maria Elisabete Peretti e Maria Elisa Peretti Bertuol (irmãs), para narrar e relembrar fatos que foram passados de geração em geração sobre a família que ajudou a construir Encantado.
Elas comentam que os bisavós, os quais tiveram quatro filhos, vieram da Itália em 1882, acompanhados por Antônio, irmão de Giovanni, pois estavam descontentes com a situação da Itália e buscando uma vida melhor. O casal teve quatro filhos. Quando chegaram, comparam a terra, vindo instalar-se na localidade de Encantado. Assim, junto com a família Lucca, foram os primeiros colonizadores do município, que, neste dia 31 de março, completa 111 anos de emancipação.
Sobre o sentimento em relação aos bisavós e primeiros imigrantes as primas são unanimes em dizer que eles são motivo de orgulho para elas, além de serem exemplos de fé, perseverança e trabalho. Giovanni era marceneiro e ferreiro, trouxe várias ferramentas da Itália, o que ajudou para que em mutirão construíssem a casa, a qual está de pé ainda hoje.
Os pregos foram feitos de madeira, assim como o telhado, feito de pequenas tábuas, além da estrutura da casa de toras e madeira de cerne, para dar sustentação e garantir a durabilidade. A casa, ampla de dois andares, tem uma escada interna e diversos quartos, além da cozinha, e ao lado um puxado onde moíam e descascavam os grãos.
A família Bratti, na época, trouxe também vários objetos da Itália e alguns deles ainda estão guardados com carinho como a colcha, o cobertor de lã, alguns talheres e louças, e até um scaldalette (objeto que colocavam brasas e passavam na cama para esquentar os lençóis nos dias frios).
Eles recordam que os pais e avós contavam que os bisavós abriram uma picada até próximo ao Arroio Lambari, onde construíram a casa a facão. Eram agricultores e plantavam um pouco de tudo para o sustento da família, além de criarem o bicho da seda para poderem vender o fio. Inclusive tinham a roca.
As primas recordam que Giovanni e Antônio eram alfabetizados e mantinham correspondência com familiares na Itália. Esse hábito contribuiu para a transmissão do conhecimento entre as gerações. Maria Elisa destaca ainda que eles participaram da construção da Capela Santo Antão e, por meio de cartas, entraram em contato com o pai Andrea, que vivia na Itália, para solicitar o envio de objetos religiosos destinados à igreja.
Herança cultural passada para as gerações
Zaida lembra que o avô, Girôlamo Bratti, gostava muito de ler e diariamente tirava tempo para isso, lendo a bíblia ou algum jornal. Maria Elisabete acrescenta que o avô era líder comunitário, ajudando inclusive nos enterros.
Recordam que ao lado da casa, tinha o potreiro, que existe ainda hoje e era lugar onde brincavam e o avô as levava passearem de cavalo. Girôlamo era autoditada e também gostava de música, inclusive fazia parte do coral da época e o regia. Ele, assim como os filhos, irmãos e genros participaram também do Tiro de Guerra (serviço militar obrigatório no próprio município).
Os filós entre vizinhos, a reza do terço diariamente e antes das refeições, bem como a vida comunitária foram outras características passadas de geração em geração. Os jogos de cartas, dominô, tombola que hoje é conhecido por bingo, entre outras brincadeiras, assim como as cantorias e anedotas são heranças culturais que aprenderam na família.
As primas contam ainda que as suas mães, todas irmãs, filhas de Girôlamo e Maria Pederiva Bratti, eram professoras e tinham um grupo de teatro com várias amigas. Se apresentavam nas comunidades e em outros municípios da região. Além disso, eram mestras em tricô, crochê, macramê, frivolité, crochê filé, ponto cruz e bordados diversos. “As mulheres eram fortes, de fibra, ensinavam os filhos a fazer os temas, tinham memória boa e participavam ativamente de tudo”, recordam as netas sobre as suas mães, avó e bisavó.
Sobre os antepassados Angela destaca: “Temos orgulho, eles foram exemplos de perseverança, ensinamentos e de fé. Batalharam para o início do município, tinham espírito aventureiro diante das dificuldades, deixando um legado de grande importância para Encantado”. Zaida complementa “nossa gratidão a eles e ao que nos deixaram de coragem, humildade e valores. Cabe a nós irmos passando tudo isso e seguir o exemplo deles”.




Fotos: reprodução/Gisele Feraboli
