Do processo ao propósito: a trajetória de Renata Galiotto e a construção de um legado empreendedor
“Ter sabedoria para se posicionar é o grande segredo, é a grande chave do sucesso”.
“Todo mundo quer e sonha com o topo, mas ninguém quer viver o processo.” A frase resume não apenas um pensamento, mas a própria história de vida de Renata Portaluppi Casagrande Galiotto — uma trajetória marcada por desafios, reinvenção e coragem para seguir em frente mesmo nos momentos mais difíceis.
Natural de Vespasiano Corrêa, onde sua família vive até hoje, Renata cresceu cercada por valores que moldariam sua caminhada. Filha de uma mulher que considera sua maior inspiração, aprendeu desde cedo o significado de esforço, ética e perseverança. “Minha mãe, com toda sua sabedoria e vivência, me ensinou a lutar e a não desistir. Ela sempre quis um futuro diferente para os filhos, e isso me move até hoje”, relembra.
Coragem para começar
A jornada profissional começou cedo. Após se formar professora em Guaporé, lecionou por um cerca de um ano até decidir buscar novos caminhos. Com uma mala de roupas e muita determinação, mudou-se para Porto Alegre ao lado de uma amiga, em busca de oportunidades. Sem emprego garantido, iniciou ali uma fase decisiva: procurar trabalho, construir uma base e acreditar que era possível ir além.
Na capital, conheceu o marido, Tomé Galiotto, com quem adquiriu o primeiro negócio da família: uma ótica. A vida avançava entre trabalho, casamento e maternidade — quando a família decidiu retornar ao interior, estabelecendo-se em Muçum e depois em Encantado, onde a Ótica Brilhos, localizada no Centro de Encantado, segue ativa até hoje sob a gestão de Tomé.
Foi nesse período que surgiu a necessidade de qualificação. Para atuar com mais propriedade no segmento óptico, Renata ingressou no curso de Optometria da Ulbra, em Canoas. Durante cinco anos, enfrentou uma rotina exaustiva: saía de Encantado às quatro da manhã para estudar, conciliando a formação acadêmica com a maternidade e o trabalho. “Eu já tinha a Gabriela, e a Rafaela tinha quatro meses”, comenta.
A reinvenção que virou negócio
No entanto, foi justamente no momento mais desafiador da graduação que surgiu uma virada. Diante de dificuldades pessoais e financeiras, Renata percebeu que precisava se reinventar. Já atuando com a venda de óculos para prefeituras e secretarias de saúde, identificou uma oportunidade: ampliar sua atuação para o fornecimento de medicamentos.
A ideia ganhou forma de maneira inesperada, durante uma conversa com seu orientador, na biblioteca da universidade, enquanto desenvolvia o Trabalho de Conclusão de Curso. “Ele me sugeriu abrir um atacado. Na hora, achei loucura. Eu não tinha recursos nem para terminar a faculdade”, recorda. Mesmo assim, aquela provocação plantou a semente do que viria a ser a Ciamed distribuidora de medicamentos.
O nascimento da Ciamed
A empresa surgiu oficialmente no final da graduação, em 2003, quando foi instalada no quarto andar do prédio do Beneduzzi no Centro de Encantado. O que começou como uma necessidade de recomeço tornou-se um empreendimento sólido e de referência, hoje localizado em um amplo espaço na Rua Severino Augusto Pretto, no bairro Santo Antão.
A criação da Ciamed não foi apenas uma mudança de área — foi a construção de uma nova identidade profissional. “A área de medicamentos surgiu de uma necessidade que eu tinha me reinventar, de começar um novo negócio, uma nova profissão”, conta.
Mulheres que inspiram e transformam
Ao longo da caminhada, Renata encontrou inspiração em muitas histórias — nem sempre de grandes empresárias, mas de mulheres comuns que enfrentam a vida com coragem. “Me inspiro em mulheres que acordam cedo, levam filhos para a creche e vão trabalhar, enfrentando sol e chuva. Mulheres anônimas, mas extremamente fortes.”
Apesar dos avanços, ela destaca que o ambiente empresarial — especialmente no setor de distribuição de medicamentos — ainda é majoritariamente masculino. Quando iniciou a Ciamed, há cerca de duas décadas, a presença feminina era rara. Hoje, embora mais comum, ainda tem poucas mulheres atuando na liderança dessa área.
Renata não nega ter vivido situações de preconceito, mas transformou essas experiências em combustível. “Sempre preferi me posicionar. Quem não se posiciona, será posicionado. Ter sabedoria para se posicionar é o grande segredo, é a grande chave do sucesso. O preconceito me impulsionou a provar que eu era capaz.”
Conhecimento como chave
Se existe um ponto que ela considera decisivo para sua consolidação profissional, é o investimento contínuo em conhecimento. Após a graduação, buscou formação em uma das principais escolas de negócios do país, a Fundação Getulio Vargas (FGV), incluindo experiências internacionais.
“Isso me trouxe muita segurança de que eu estava preparada para enfrentar os cenários, porque precisarmos estar em aprendizado constante para poder sentar numa mesa de negociação para dialogar, para negociar”, enfatiza. Para Renata, conhecimento traz segurança, propriedade e liberdade. Segundo ela, para alcançar os objetivos é preciso manter foco, determinação e persistência, pois os obstáculos são constantes; no entanto, a cada desafio superado, adquire-se mais sabedoria e se aproxima de uma trajetória vitoriosa.
O verdadeiro significado de empreender
Para Renata, empreender vai além de abrir uma empresa. É uma postura diante da vida. “Ser empreendedora é aceitar desafios, buscar autoconhecimento, entender o ambiente e estar disposta a pagar o preço pelos seus objetivos”, enfatiza.
Ela também reforça que liderança está longe de ser apenas reconhecimento. “Liderar, na maioria das vezes, é lidar com críticas e questionamentos. Quem não está preparado para isso, não está preparado para liderar.”
Ainda assim, acredita no poder transformador das dificuldades. Segundo ela, as críticas doem, mas transformam se soubermos usá-las como combustível, tornam as pessoas mais fortes.
Propósito, fé e evolução
Além do mundo dos negócios, Renata encontra no voluntariado uma fonte de crescimento pessoal e espiritual. Já foi presidente da Associação Comercial e Industrial de Encantado (ACI-E) e presidente da Suinofest. Para ela, o contato com diferentes realidades amplia a visão de mundo e fortalece valores essenciais.
Sua trajetória é sustentada por uma base que considera inegociável: a fé. “Existe uma força maior que me sustentou em todos os momentos. É isso que não me deixou desistir.”
Ao olhar para trás, ela não hesita: faria tudo novamente. Não pelos resultados financeiros, mas pelos aprendizados e pela evolução como ser humano.
Uma mensagem para o futuro
Mais do que contar sua história, Renata provoca uma reflexão: qual é o seu propósito? “Quando você se pergunta onde quer chegar, começa a entender o preço de cada degrau. O topo não é para quem evita o processo, mas para quem está disposto a enfrentá-lo.”
Sua mensagem final é clara e direta: o aprendizado nunca termina. E é justamente essa busca constante que sustenta qualquer conquista verdadeira. “Somos capazes de transformar nossa realidade. Com conhecimento, fé e determinação, é possível olhar para trás e dizer: eu venci.”
