Fundado em 1922 pela família Piccinini, estabelecimento mantém atendimento familiar e próximo à comunidade
Há mais de um século, a Bodega D’Lourdes faz parte da rotina do bairro Jacarezinho, em Encantado. Localizado na Rua João Carlos Pretto, 620, o estabelecimento ocupa o mesmo endereço desde 1922, quando foi fundado por Arcanjo Piccinini, bisavô da encantadense Kátia Fiel, 58 anos, atual proprietária ao lado do marido, Paulo Rocha, 62, natural de Taquari.
Ao longo de quatro gerações da família, o comércio atravessou transformações, mudanças econômicas e desafios que marcaram sua história, consolidando-se como um dos empreendimentos mais tradicionais do município. Hoje, com sete colaboradores, a bodega atende de segunda a domingo, das 6h30min às 20h, oferecendo mais de cinco mil itens e mantendo um atendimento próximo dos clientes, característica que atravessou décadas.
“A bodega só fecha do meio-dia do domingo às 15h30min, para nós dormirmos um soninho. Se não está sempre aberta, inclusive no meio-dia, direto”, brinca Paulo.
Segundo ele, Arcanjo Piccinini iniciou as atividades comprando suínos dos colonos da região com tropas de mulas e, posteriormente, ampliou o negócio com um armazém de secos e molhados, venda de tecidos e comercialização de carnes. A residência de madeira de dois andares também passou a funcionar como hotel à medida que os filhos constituíam suas famílias.
Com o passar dos anos, o comércio ficou sob responsabilidade de Adolfina, filha de Arcanjo, e seu esposo Abrelino Fiel, em um período marcado por dificuldades. O filho do casal, Luiz Fiel, casou-se com Lourdes, mãe de Kátia. Por fim, após o falecimento precoce de Luiz, Lourdes Fiel foi quem conduziu o estabelecimento por cerca de duas décadas após ficar viúva.
“O Luiz faleceu muito jovem, minha esposa Kátia já era nascida, tinha entre seis e sete anos. Então ela, com a mãe, ficou morando com os avós Adolfina e Abrelino. Depois que eles morreram, a Dona Lourdes, como viúva, ficou tocando o negócio sozinha, então ela é a terceira geração”, explica o atual proprietário.
Quarta geração assumiu negócio antes da pandemia e superou enchentes
Em 2020, Paulo e Kátia deixaram Porto Alegre para cuidar de Lourdes, que enfrentava um câncer. Após a morte dela, em junho de 2021, decidiram dar continuidade ao comércio e homenagearam a sogra ao batizar oficialmente o estabelecimento como Bodega D’Lourdes. O casal investiu na ampliação do estoque, construiu um depósito e reformou a fachada, iniciando uma nova fase para o negócio.
Pouco tempo depois vieram as enchentes de setembro e novembro de 2023 e, posteriormente, a histórica inundação de maio de 2024. Na primeira delas, Paulo relembra que permaneceu nove horas sobre o telhado ao lado de Kátia e de dois colaboradores até o resgate.
A recuperação só foi possível graças ao auxílio de voluntários de 29 cidades e da comunidade local. “Sem essas pessoas nós não teríamos nos recuperado. Essas pessoas vieram com a energia, com o corpo e uma pá ou enxada. Nos ajudaram muito”, recorda.
Hoje, o faturamento já supera o período anterior às enchentes, embora Paulo acredite que o crescimento poderia ser ainda maior sem os prejuízos acumulados. Para ele, o diferencial continua sendo o relacionamento construído com os clientes. “A gente procura dar muito carinho para as pessoas que são nossos clientes, são nossos amigos. O nosso tratamento aqui é sempre pessoal. A gente acredita numa relação próxima, uma relação de confiança, olho no olho”, afirma.
Embora os filhos, Julierme e Lucas, tenham seguido carreira como engenheiros e atualmente não pretendam assumir o negócio, Paulo e Kátia seguem investindo e planejando o futuro da empresa. “Nós queremos investir mais aqui na bodega, trazer novidades e nos desafiar. O bom é que a gente não sabe o que vai acontecer. A gente gosta dessa adrenalina dos desafios. O mais importante é que gostamos das pessoas da comunidade, local de pessoas maravilhosas”, conclui.
Texto – César Husak
Fotos – César Husak e Arquivo pessoal




