Whatsapp
Geral Lugar de Mulher

Vani De Conto: uma trajetória marcada pelo cuidado e pelo conhecimento

Vani De Conto: uma trajetória marcada pelo cuidado e pelo conhecimento
  • Publicadoagosto 21, 2026

Aos 74 anos, Vani Maria De Conto carrega na memória histórias de mais de cinco décadas dedicadas à saúde e ao cuidado com as pessoas. Nascida em Encantado, tornou-se uma profissional conhecida na cidade pela experiência, pela curiosidade e, sobretudo, pela maneira acolhedora com que atende quem chega até ela.

Técnica de enfermagem há mais de 45 anos e atualmente assistente de farmácia, Vani resume sua vocação em uma frase: “Eu não sei fazer outra coisa a não ser atender as pessoas”. A afirmação traduz uma trajetória construída com estudo, trabalho, desafios e inúmeros encontros que permanecem vivos em sua lembrança.

A caminhada profissional

A relação de Vani com o trabalho começou cedo. Com 14 anos e meio, iniciou a vida profissional no Fontana, onde permaneceu por dois anos e meio. Depois, trabalhou durante nove meses na farmácia do Hospital Beneficente Santa Teresinha (HBST). Aos 18 anos, passou a atuar como plantonista no hospital, iniciando oficialmente sua caminhada na enfermagem.

Algum tempo depois com 22 anos, iniciou o curso Técnico em Enfermagem no Colégio Madre Bárbara, em Lajeado. A formação durou três anos e meio, e foi ministrada por médicos, tendo sido, segundo ela, um grande diferencial em sua carreira profissional pelos aprendizados que obteve sobre todas as patologias existentes e diversos procedimentos técnicos. Durante o curso, Vani contou inicialmente com a ajuda financeira do ex-marido e, depois, foi contemplada com uma bolsa de estudos da Alemanha, que lhe permitiu concluir a formação.

Durante 14 anos, trabalhou no HBST, passando por diferentes setores, entre eles a sala de cirurgia. Também acompanhava pacientes em ambulâncias em viagens até Porto Alegre. Já nesse período trabalha também no Posto de Saúde, onde foram quase três décadas como funcionária pública, atuando principalmente como vacinadora. Ela percorria comunidades do interior, visitava famílias e explicava a importância da imunização. O contato direto com a população reforçou uma característica que acompanha sua carreira: a facilidade para conversar e criar vínculos.

Depois, abriu a própria farmácia, experiência que ampliou seus conhecimentos sobre o setor e permitiu contato com distribuidoras e empresas farmacêuticas. Há nove anos, chegou à Farmácia São João, onde encontrou uma nova maneira de continuar fazendo aquilo de que gosta: conversar, orientar e acolher.

Ao longo dos anos, participou de diversos congressos, cursos e especializações em diferentes cidades, entre elas Porto Alegre e Curitiba. Também fez uma qualificação de 1.022 horas/aula sobre vitaminas.

Uma oportunidade que lamenta não ter aproveitado foi a possibilidade de fazer uma especialização em enfermagem na Bélgica. O curso exigiria três anos fora do país e, naquele momento, ela não contou com o apoio do marido. “Perdi essa oportunidade, mas sou muito grata por tudo o que aprendi”, afirma.

Vidas que ficaram na memória

Entre tantas experiências, algumas situações ultrapassaram o ambiente profissional e se transformaram em lembranças para a vida inteira. Uma delas ocorreu quando acompanhava uma criança de cinco anos e sua mãe, em uma ambulância, no caminho para Porto Alegre. A criança sofreu uma parada cardiorrespiratória. Com os conhecimentos adquiridos na formação, Vani realizou os procedimentos de emergência, inclusive a intubação. Décadas depois, já trabalhando na farmácia, reencontrou o menino, então com 49 anos, levado pela mãe para agradecer pela vida do filho. Em outro caso, ajudou a socorrer um homem em uma emergência, também com parada cardiorespiratória, anos mais tarde, recebeu na farmácia a visita dele, já com 98 anos, acompanhado da filha e da neta, também para agradecer.

Um momento que guarda com orgulho está na oportunidade de acompanhar, em 1984, o primeiro transplante de coração do Rio Grande do Sul, durante uma formação em um hospital especializado em cardiologia. Sem poder entrar na sala cirúrgica, assistiu ao procedimento por uma estrutura de vidro. “Eu tive esse privilégio também, dentro da minha profissão”, recorda.

Aprender para ensinar

Vani gosta de auxiliar colegas mais jovens e acredita que ninguém deve ter vergonha de admitir que não sabe alguma coisa. “A gente nunca sabe tudo. Se não sabemos, se vai perguntar para quem sabe e depois informar”, ensina. Para ela, curiosidade, paciência e disposição para buscar respostas são fundamentais para quem trabalha diretamente com o público.

Essa postura nasceu de uma vida inteira dedicada ao aprendizado. Vani lembra com carinho de pessoas que contribuíram para sua formação, como as religiosas: Ir. Carolina Weber e a enfermeira e professora de português Ir. Iraci Toniolo. Também cita o médico Nédio Robélius Pretto, já falecido, que lhe emprestava livros e ajudou a ampliar seus conhecimentos na área da saúde. “Sempre gostei de saber mais, aprender mais. Sempre fui muito curiosa. Lia muito. Tudo que saía de novo eu queria saber.”

Cuidar também é saber escutar

Para Vani, trabalhar em uma farmácia não significa apenas vender medicamentos. O atendimento começa no respeito e deve ser o mesmo para todos, independentemente do valor da compra.

Na sua visão, um bom atendimento é aquele que faz a pessoa sair melhor do que entrou. Isso exige confiança, atenção e espaço para que o cliente apresente dúvidas e fale sobre o que está sentindo. Mas também significa respeitar quem prefere apenas comprar o medicamento. “Se a pessoa se abre, acho que a gente tem que questionar e procurar ajudar. Mas, se ela só quer o medicamento, tem que respeitar”, explica.

Ao longo dos anos, tornou-se uma pessoa procurada não apenas por quem precisa de orientação sobre um medicamento, mas também por aqueles que desejam conversar. Assuntos delicados são tratados com discrição e acolhimento. “Sempre fui de me doar”, afirma.

Ao falar sobre a presença feminina na saúde e no mercado de trabalho, Vani defende que as mulheres ocupem cada vez mais espaços de liderança e acredita que a comunicação, a paciência, a postura e a capacidade de transmitir confiança são diferenciais importantes. Para ela, além de demonstrar credibilidade, é fundamental buscar constantemente novos conhecimentos e aprimorar aquilo que falta para exercer a profissão com segurança e competência. “Quem gosta da profissão tem que ter muita paciência”, resume.

Para Vani a maior lição que aprendeu na vida é tratar a todos com igualdade. E, ao falar diretamente às mulheres, deixa uma mensagem que resume sua própria trajetória: “Seja você, do jeito que você é, sem fantasia, sem nada”.

-+=