Nair Bagatini: uma trajetória marcada pela defesa dos direitos das mulheres e dos agricultores
“Nunca desista, recomece quantas vezes forem necessárias”
Nascida, criada e moradora da Linha Argola, em Encantado, Nair Bagatini, é vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Encantado e Doutor Ricardo e coordenadora da Regional Serra do Alto Taquari de Mulheres.
Filha mais velha de Deonilda Pederiva Facchini e Adolfo Facchini, Nair cresceu ao lado dos cinco irmãos em uma família que lhe ensinou, desde cedo, o valor da união e da participação. Hoje ela transforma esses ensinamentos na sua atuação diária.
Sua história profissional também passa pela área da saúde. Entre 1975 e 1986, trabalhou na área da saúde, no Hospital Beneficente Santa Terezinha de Encantado foram dez anos, e também um período no Hospital de Nova Bassano. Atuou principalmente na farmácia, mas também auxiliando em diferentes atividades conforme a necessidade. Gostava do trabalho e guarda boas lembranças daquele período, especialmente pelo contato com as pessoas. “Trabalhar no hospital me fez bem, pelo conhecimento, mas também por ajudar muitas pessoas, ouvir e interagir com muita gente”, recorda.
A rotina, porém, despertava nela o desejo de estar mais próxima da vida no campo. Queria sentir o sol, caminhar, suar, movimentar-se. Ao mesmo tempo, ela lembra que as doenças na família trouxeram dificuldades e a fizeram voltar à agricultura para estar mais presente e cuidar deles.
Mesmo durante os anos em que trabalhou no hospital, fazia diariamente o trajeto entre a Linha Argola e o centro de Encantado. Quando voltou definitivamente para a agricultura, encontrou também novos caminhos para sua participação comunitária. Tornou-se associada do STR e passou a integrar o Clube de Mães Cultivamos a Alegria, da sua comunidade — espaços que continuam fazendo parte de sua vida.
Uma mulher que pergunta, participa e transforma
Nair sempre foi curiosa e questionadora. Nas reuniões do sindicato, sua maneira de observar a realidade, fazer perguntas e participar das discussões chamou atenção. O convite para integrar a diretoria do STR e assumir a coordenação da Regional Serra do Alto Taquari de Mulheres veio como consequência dessa postura.
A primeira passagem pela coordenação da Regional ocorreu entre 2000 e 2018. Desde 2023, ela voltou a estar à frente do grupo, que reúne representantes de 14 municípios: Anta Gorda, Arvorezinha, Dois Lajeados, Encantado, Guaporé, Ilópolis, Itapuca, Muçum, Nova Bréscia, Putinga, Relvado, São Valentim do Sul, União da Serra e Vespasiano Corrêa.
Cerca de 20 mulheres participam dos encontros, realizados três vezes ao ano. Mais do que reuniões, Nair define o espaço como um ambiente de construção coletiva. As pautas são diversas, mas principalmente tendo o foco nas políticas públicas e os direitos das mulheres do meio rural, assim como qualidade de vida, autoestima, participação feminina, oportunidades e ocupação de espaços de decisão estão entre os principais assuntos. Também fazem parte das discussões a agroecologia, as plantas medicinais e os quintais produtivos — hortas, fruteiras e outras formas de produzir alimentos para o sustento da família, contribuindo para uma alimentação mais saudável e para a valorização dos conhecimentos que passam de geração em geração.
Quando a comunidade se une, todos avançam
A atuação comunitária de Nair começou muito antes de assumir funções de liderança sindical. No Clube de Mães Cultivamos a Alegria, foi presidente entre 1992 e 1993. Naquele período, o grupo se mobilizou para recolher materiais recicláveis que ajudaram na construção do salão comunitário. Também realizou campanhas de vacinação para atualização da carteira de saúde e prevenção ao tétano, além de uma ação de testes nos bovinos, realizada em parceria com as secretarias municipais da Saúde e da Agricultura.
O grupo ainda conseguiu um nebulizador e um aparelho para medir a pressão arterial. Por sua experiência na área da saúde, Nair auxiliava os moradores que precisavam utilizar os equipamentos. Mas uma das iniciativas que mais simbolizam aquele período foi a fundação do Clube da Terceira Idade da Linha Argola, que permanece ativo até hoje.
O exemplo que veio de casa
Se hoje Nair acredita na força do fazer juntos, é porque aprendeu isso dentro de casa. Seus pais são suas grandes referências. Segundo ela, os dois sempre destacavam a importância da participação, da união e da representatividade coletiva. “Se nós não temos as cooperativas e os sindicatos, nós não vamos para a frente”, costumavam dizer.
Para Nair isso refletia a necessidade que os produtores rurais viviam naquela época e ainda hoje é importante, principalmente no aspecto da união de esforços e objetivos que fortalece os agricultores. Ela acredita que a união de esforços e objetivos é capaz de fortalecer não apenas cada trabalhador, mas toda a comunidade.
Nair que também participou de diversas Marchas das Margaridas destaca que ali se avança nas políticas públicas voltadas para as mulheres de todo o país, sendo um evento importante na busca de direitos. “Tem coisas que o movimento sindical luta por muitos anos para conquistar”, resume Nair ao citar como exemplos o Sistema Único de Saúde (SUS) e o Pronaf Mulher que considera conquistas importantes para os brasileiros e brasileiras.
“Se nós tirarmos todas as políticas que os STRs conseguiram para os agricultores morre a comunidade e o município”, salienta ao destacar a importância de vários direitos conquistados. Também destaca a aposentadoria rural, que, além de garantir renda para as pessoas idosas, movimenta a economia dos pequenos municípios.
Ainda há espaços para conquistar
Ao falar sobre preconceito, Nair conta que teve liberdade para trabalhar e participar. Mas reconhece que essa não é a realidade de todas as mulheres. A violência contra a mulher, em especial, permanece como uma preocupação. Ela ressalta que hoje existem diferentes portas de entrada para buscar ajuda, como a Assistência Social, a Promotoria, a Delegacia de Polícia e a Brigada Militar.
Em relação a oportunidades para mulheres, Nair enfatiza o quanto já se evoluiu, mas ainda é preciso avançar para a igualdade de gênero. “Já se fez muito, mas as mulheres ainda não estão em grande número nas diretorias das entidades, cooperativas, prefeitas são raras”.
Para ela, ocupar espaços não significa substituir o outro, mas sim fazer de forma conjunta. “Saber que eu sou diferente de você, que cada um é cada um. As diferenças são importantes e o respeito dos saberes, das trocas de ideias para somar e construir juntos é muito importante”.
Como mensagem para as mulheres destaca a persistência e a importância da conquista de direitos. “O sindicato foi a porta de entrada. Eles sempre me acolheram, incentivaram e contribuíram para que eu pudesse desenvolver o trabalho. Destaco as mulheres que vieram antes de nós, que apesar de tantas dificuldades lutaram do jeito que puderam. Se elas não tivessem feito isso, hoje não teríamos várias conquistas como: aposentadoria, 13º salário, Pronaf Mulher, habitação em nome de mulheres e o reconhecimento das mulheres como produtoras rurais e não apenas do lar. Por isso, nunca desista, recomece quantas vezes forem necessárias”, comenta.
