Cíntia Agostini: uma trajetória marcada pela liderança e muitos “SIMs”
“É preciso acreditar em si mesmas, se desafiar, ser coerente com aquilo que se acredita e não ter medo de se expor. É assim que se constroem oportunidades”
Filha mais velha de uma família de três irmãos, Cíntia Agostini nasceu e cresceu em Marques de Souza, no Vale do Taquari. Os pais, naturais de Progresso, construíram a vida no município após o casamento e foi ali que ela deu os primeiros passos de uma caminhada que a levaria aos principais espaços de liderança regional.
Desde muito cedo, Cíntia Agostini demonstrou paixão pelos estudos. Ainda criança, insistiu para frequentar a escola antes da idade prevista, acompanhando a professora que passava em frente à sua casa. Os boletins já destacavam uma aluna dedicada, inteligente e sempre disposta a ajudar os colegas, características que mais tarde se refletiriam em sua capacidade de liderança e articulação.
Para cursar o Ensino Médio, precisou enfrentar uma rotina desafiadora: todos os dias viajava sozinha de Marques de Souza até Lajeado para estudar no Colégio Estadual Presidente Castelo Branco, o Castelinho. Durante três anos, o trajeto diário fortaleceu sua independência e disciplina. Ao recordar essa fase, reconhece o papel fundamental da educação pública, que lhe proporcionou uma formação sólida e contribuiu para a construção de sua trajetória acadêmica e profissional.
Economia: a escolha entre a matemática e a política
Ao concluir o Ensino Médio, Cíntia tinha clareza sobre suas limitações financeiras. Estudar em uma universidade distante estava fora de cogitação. Era preciso conciliar trabalho e formação. A Univates surgiu como uma oportunidade possível e acessível. A escolha pelo curso de Ciências Econômicas nasceu da combinação de duas paixões: a matemática e a política.
A economia apareceu como um campo capaz de unir raciocínio lógico e compreensão social. Em março de 1996, ingressou na graduação. Poucos meses depois, recebeu um convite que mudaria sua vida.
A oportunidade que transformou uma bolsista em vice-reitora
Uma professora identificou seu potencial e a convidou para integrar um projeto de pesquisa sobre planejamento estratégico de Encantado. A experiência foi decisiva. O que começou como uma bolsa de pesquisa se transformou em uma trajetória de quase três décadas dentro da Univates. De bolsista, passou a estagiária. Depois, funcionária. Mais tarde, professora. E, atualmente, ocupa o cargo de vice-reitora da instituição de ensino.
Ao longo desse percurso, transitou por diversos setores. Atuou em áreas administrativas, coordenou a incubadora tecnológica Inovates, esteve à frente do Parque Científico e Tecnológico e participou da estruturação da área comercial da universidade. Sua entrada na docência também aconteceu de forma inesperada. Em uma quarta-feira, recebeu um convite para lecionar. Na segunda-feira seguinte, já estava em sala de aula. “Foi o período em que mais estudei na vida”, relembra.
Uma vida dedicada ao desenvolvimento regional
Paralelamente à trajetória construída na Univates, Cíntia Agostini consolidou uma atuação marcante no Conselho de Desenvolvimento do Vale do Taquari (Codevat), entidade da qual faz parte desde 1998. Sua história com o conselho começou, quando atuava como secretária de departamento na Univates e assumiu também a secretaria executiva do Codevat. Pouco depois, passou a exercer a mesma função no Fórum dos Coredes, organismo que reúne os conselhos regionais de desenvolvimento de todo o Rio Grande do Sul. A experiência ampliou sua visão sobre planejamento estratégico e desenvolvimento regional, além de fortalecer sua capacidade de articulação entre diferentes lideranças e instituições.
Ao longo dos anos, manteve uma ligação constante com o Codevat, pois a Univates mantem a estrutura e a secretaria da entidade. Atuou também como secretária executiva do conselho e também do Comitê de Gerenciamento da Bacia Hidrográfica Taquari-Antas. Mais tarde, em um momento de transição na entidade, foi convidada pela Univates a colocar seu nome à disposição para a presidência.
A partir daí, iniciou uma nova etapa de liderança regional. Presidiu o Codevat por sete anos, passou dois anos como vice-presidente e outros dois integrando o Conselho Fiscal. Em 2024, voltou à presidência da entidade, cargo que ocupa atualmente, e prepara-se para mais uma eleição da diretoria neste ano, colocando seu nome novamente à disposição.
Para Cíntia, liderar o conselho representa uma combinação de honra e responsabilidade. “Quando me vejo presidindo o conselho e liderando várias pautas regionais, sinto-me uma pessoa privilegiada. Claro que existe muita entrega, muito trabalho, mas também uma grande responsabilidade. Responsabilidade com aquilo que faço, com o que proponho para a região, com os processos participativos, com a democracia e, principalmente, com a ideia de colocar o coletivo acima do individual. Sinto-me lisonjeada pela confiança que tantas pessoas depositam em mim.”
Ela define o Codevat como uma entidade articuladora, capaz de reunir diferentes setores e interesses em torno de um objetivo comum: o desenvolvimento do Vale do Taquari. “O papel do conselho é colocar todos debaixo do mesmo guarda-chuva para pensar o desenvolvimento regional”, resume.
Ao refletir sobre sua atuação à frente do Codevat e na vice-reitoria da Univates, Cíntia identifica dois pilares fundamentais. O primeiro é o conhecimento técnico, construído por meio da graduação em Economia, da especialização em Cenários Econômicos, do mestrado em Ambiente e Desenvolvimento, do doutorado em Desenvolvimento Regional e de um MBA em Gestão da Inovação. O segundo é a capacidade de articulação política, entendida como a habilidade de reunir pessoas e instituições em torno de objetivos comuns.
Para ela, nenhuma decisão faz sentido se não estiver conectada ao interesse coletivo. Essa visão acompanha sua atuação profissional e pessoal. Na prática, isso significa promover o diálogo entre representantes dos municípios, entidades empresariais, trabalhadores, setor turístico, instituições de ensino e demais organizações regionais, buscando construir uma visão compartilhada de futuro para a região.
A força dos “SIMs”
Ao olhar para a própria história, Cíntia não fala em planejamento rígido ou metas cuidadosamente desenhadas. Sua trajetória foi construída a partir das oportunidades que surgiram e da disposição de aceitá-las.
Quando foi convidada para dar aula, disse sim. Quando surgiu a oportunidade de atuar na incubadora tecnológica, disse sim. Quando foi chamada para assumir novas funções na universidade, disse sim. Quando recebeu o convite para integrar a gestão da reitoria, novamente disse sim. Para ela, essa é a principal lição de vida. “Os vários SIMs que fui dizendo ao longo da minha caminhada formaram muito da pessoa que sou hoje.” Mais do que títulos ou cargos, Cíntia Agostini acredita no poder da construção coletiva.
E deixa uma mensagem especialmente às mulheres que desejam ocupar espaços de liderança: “É preciso acreditar em si mesmas, se desafiar, ser coerente com aquilo que se acredita e não ter medo de se expor. É assim que se constroem oportunidades.” Uma lição que ela própria transformou em prática ao longo de toda a sua vida.
Foto: Divulgação
