Entre inovação tecnológica, desenvolvimento humano e equilíbrio emocional, especialistas apontam os caminhos para construir carreiras mais conscientes, adaptáveis e alinhadas ao cenário atual
O trabalho molda rotinas, constrói identidades e sustenta sociedades inteiras. Celebrado em 1º de maio, o Dia do Trabalho vai além de uma simples data no calendário: convida a olhar não apenas para o que já foi alcançado, mas, principalmente, para o futuro das relações de trabalho e o papel de cada profissional em um contexto em constante mudança.
Para entender como esse novo cenário impacta carreiras e organizações, o Jornal Opinião conversou com profissionais de diferentes áreas, que compartilham experiências, visões de futuro e orientações para quem busca crescimento e realização no mundo do trabalho.
Propósito, pessoas e desenvolvimento
Com mais de 15 anos de atuação na área de gestão de pessoas, a mentora, treinadora e assessora empresarial Fernanda Roveda construiu sua trajetória voltada ao desenvolvimento humano e à formação de equipes mais conscientes, produtivas e alinhadas a resultados. Formada em Gestão de Pessoas, com formação técnica em Contabilidade e pós-graduações em Gestão de Pessoas, Direito do Trabalho e Contabilidade com ênfase em tributos, ela também atua na aplicação da NR-01 dentro das empresas, conectando exigências legais à prática da liderança e ao cuidado com as pessoas. Seu trabalho abrange principalmente o Vale do Taquari, com atendimentos presenciais e online em todo o Brasil.
Para ela, o trabalho vai muito além da remuneração. “Meu trabalho é propósito e transformação. Através das mentorias, ajudo pessoas a desenvolverem clareza, segurança e posicionamento. Quando alguém evolui internamente, melhora seus resultados e impacta diretamente sua vida, sua família e o ambiente onde está inserida”, afirma.
Entre as habilidades mais valorizadas atualmente pelas empresas, ela destaca comunicação, inteligência emocional, responsabilidade, tomada de decisão e trabalho em equipe. “Hoje, comportamento e atitude têm tanto peso quanto o conhecimento técnico”, salienta.
Diante de carreiras cada vez menos lineares, a capacidade de adaptação torna-se essencial. Para Fernanda, o profissional precisa desenvolver flexibilidade e consciência sobre si mesmo e estar aberto ao aprendizado contínuo e à reinvenção. “Quem se mantém aberto ao novo cresce com mais consistência. Reinventar-se exige olhar para dentro, entender o cenário e agir com estratégia. É um processo que envolve desenvolvimento pessoal, busca por conhecimento e disposição para mudar. Quem desenvolve o SER, amplia o SENTIR e aprofunda o CONHECER, não depende do mercado se posiciona à frente dele”.
Ela também aponta que um dos maiores desafios das empresas hoje está na gestão de pessoas e na formação de líderes preparados. Menciona que a dificuldade em alinhar comportamento, comunicação e resultado impacta diretamente no clima organizacional e na produtividade, sendo fundamental uma liderança estruturada para os processos se sustentarem.
Ao projetar o futuro da sua área de atuação, Fernanda acredita em uma integração cada vez maior entre desenvolvimento humano e estratégia empresarial. Salienta que as empresas tendem a valorizar profissionais que consigam unir resultado, comportamento e saúde emocional. “A mentoria e o desenvolvimento de lideranças conscientes terão papel central nesse cenário”, avalia.
Para quem está começando, o conselho é investir no autodesenvolvimento. “Invista no seu desenvolvimento pessoal tanto quanto no profissional. Não é possível desenvolver pessoas sem antes desenvolver a si mesmo. E tenha coragem de se posicionar. O mercado reconhece quem entrega valor com clareza e segurança”.
Tecnologia, inteligência artificial e o futuro do trabalho
Se de um lado o desenvolvimento humano ganha protagonismo, do outro a tecnologia avança rapidamente e redefine funções e processos. É nesse contexto que atua Rodrigo Dalla Vecchia, CEO da EvcomX e com ampla formação incluindo mestrado em Matemática Pura, doutorado em Modelagem Matemática na Educação Matemática e pós-doutorado em Engenharia de Produção com ênfase em Indústria 4.0, tendo atuado como professor por muitos anos.
Ele trabalha com Inteligência Artificial (IA) aplicada a grandes indústrias, como siderurgia, mineração, petroquímica, energia e logística. A empresa, sediada em Encantado, atende principalmente estados como Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, além de operações no Rio Grande do Sul.
Para Rodrigo, trabalho também está diretamente ligado a propósito. “A renda é consequência. Me sinto realizado fazendo o que faço.”
A Inteligência Artificial, segundo ele, já transforma profundamente a rotina de trabalho. Conta que usa IA em praticamente tudo, principalmente para automatizar tarefas repetitivas. “Algo que demorava horas ou dias para ser feito, hoje dura minutos. Meu trabalho é revisar e cada vez que encontro algo que precisa ser melhorado eu mudo o comando prévio inicial para que o problema não ocorra novamente”. Além disso, menciona que usa IA para tarefas não rotineiras como gerar insights para problemas específicos e também para melhorar códigos mais antigos, buscando uma eficiência melhor.
Para utilizar a tecnologia com eficiência, ele ressalta a importância da comunicação com as ferramentas. “Entender o funcionamento das IAs (não em termos técnicos, mas em termos práticos) ajuda muito a criar modos de comunicação mais eficientes. Uma dica: normalmente é necessário várias interações com uma IA do tipo generativa até ela gerar o resultado esperado. Quando eu chego no resultado esperado eu pergunto para a própria IA como deveria ter sido meu comando inicial para ela gerar o resultado esperado na primeira interação”.
Ao abordar os diferenciais para uma carreira de sucesso, destaca que está na capacidade dos profissionais resolverem problemas. Essa habilidade vai além do domínio técnico — as chamadas hard skills — e envolve também competências comportamentais. Entre elas, estão a boa comunicação, a criatividade, a proatividade, o trabalho em equipe e o desenvolvimento da liderança, conhecidas como soft skills e cada vez mais valorizadas no mercado de trabalho.
Para quem teme perder espaço no mercado para a inteligência artificial, a orientação é: “Saiba usar a IA a seu favor, melhorando seu trabalho e a sua própria eficiência. Esse será um profissional raro. Aprenda a gerenciar uma IA para que você seja um revisor do trabalho executado por ela”.
Ao falar sobre as novas profissões que estão surgindo, Rodrigo entende que as mais prováveis serão: Engenheiro de Prompt, Arquiteto de Agentes de IA, Gestor de Agentes, Auditor de IA, Treinador de IA, Curador de Dados de IA, Especialista em Segurança contra IA Maliciosa e Engenheiro de Simulação.
Carreira e qualidade de vida
Em um mercado de trabalho cada vez mais exigente, falar de carreira deixou de ser apenas falar de crescimento profissional. Hoje, envolve também qualidade de vida, saúde mental e propósito. É esse o alerta da psicóloga Suéllen Ramos, que há oito anos atua na área clínica com foco em saúde mental e trabalho. Especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental, com formação em Orientação profissional e de Carreira, Neurociências e MBA em Gestão de Negócios em andamento, ela atende em Encantado e também de forma on-line.
Segundo Suéllen, a principal queixa dos profissionais atualmente é a sobrecarga. A sensação constante de não dar conta, somada à pressão por produtividade, tem alimentado quadros de ansiedade e levado muitos ao burnout. A isso se soma a frustração de quem percebe que fez escolhas profissionais no passado sem clareza ou por necessidade, e hoje não se identifica com o caminho que está trilhando.
Há ainda um contraste entre gerações: enquanto antes a estabilidade era prioridade, hoje cresce a busca por propósito e realização — muitas vezes acompanhada de expectativas elevadas demais para o início da carreira. Nesse cenário, a psicóloga reforça a importância do autoconhecimento e de alinhar carreira ao estilo de vida desejado. “O problema nem sempre está só no trabalho, mas na forma como nos relacionamos com ele”, explica.
Estabelecer limites saudáveis, especialmente na era digital, é outro desafio. Para Suéllen, isso começa pela clareza do que é inegociável. Saber gerenciar o tempo, limitar o uso do celular, valorizar momentos de pausa e convívio, além de aprender a dizer “não”, são atitudes fundamentais para não se perder em meio ao excesso de demandas.
Ela também chama atenção para sinais de alerta que não devem ser ignorados: cansaço constante, desmotivação, alterações de humor, ansiedade e até sintomas físicos, como insônia e dores. Quando persistem, podem evoluir para quadros mais graves. “O primeiro passo é reconhecer que algo não vai bem e buscar ajuda. Prevenir sempre será mais inteligente”, orienta.
No que diz respeito ao sucesso profissional, Suéllen é direta: “A nova era não recompensa quem faz mais, mas quem faz melhor”. Habilidades técnicas continuam importantes, mas já não são suficientes. O mercado valoriza cada vez mais pensamento crítico, adaptabilidade, flexibilidade e inteligência emocional.
Cuidar de si mesmo, ter clareza de objetivos e agir com estratégia são pontos centrais para sustentar uma carreira consistente. Fazer bem o básico — estudar, se atualizar e ter responsabilidade nas entregas — segue sendo indispensável, mas sem abrir mão do equilíbrio.
Para quem está começando, especialmente na psicologia, ela reforça a responsabilidade de lidar com aquilo que as pessoas têm de mais valioso: sua história e sua forma de ver o mundo. Empatia, escuta genuína e preparo constante não são diferenciais — são essenciais.
Ao final, Suéllen deixa um convite à reflexão: a forma como você está construindo sua vida profissional e pessoal está te satisfazendo? Entender o momento de vida — seja de construção, manutenção ou mudança — é fundamental para tomar decisões mais conscientes. “O trabalho é uma parte muito importante da sua vida, mas a sua vida não é só o seu trabalho”, destaca. Em um mundo acelerado, onde o tempo é o recurso mais valioso, a forma como ele é utilizado define não apenas uma carreira, mas a qualidade da vida construída.



