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Encantado Lugar de Mulher

A missão de acolher: a trajetória de Mara Scatolla na AME

A missão de acolher: a trajetória de Mara Scatolla na AME
  • Publicadojulho 3, 2026

Quando fala sobre a Associação Pró-Menor de Encantado (AME), Mara Regina Scatola não esconde a emoção. Pedagoga, nascida em Encantado, casada com Miguel, mãe de Willian e avó da pequena Carmela, ela costuma resumir sua missão em uma frase que traduz sua forma de viver: “Tenho um filho biológico e 120 do coração”, fazendo referência as crianças e adolescentes atendidos diariamente pela entidade. “Eu amo todos eles”, afirma.

Há quase 16 anos à frente da direção da AME, Mara construiu uma trajetória marcada pelo acolhimento, pela dedicação e pela busca constante por oportunidades para quem mais precisa. Antes de assumir a entidade, trabalhou na educação infantil, na EMEI Navegantes. “Era uma realidade completamente diferente. Eu vinha da educação infantil e passaria a trabalhar com crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Pensei bastante, mas concluí que era isso que eu sabia fazer e que gostava de fazer.”

Uma transformação construída com esforço coletivo

Ao recordar o início da caminhada na AME, Mara lembra que encontrou uma estrutura bastante limitada. Havia poucos recursos e a entidade sequer possuía os cadastros necessários junto aos governos estadual e federal para buscar investimentos. Foi a partir desse trabalho de organização que a AME começou a mudar de realidade.

Hoje, o espaço é mais moderno, acolhedor e oferece muito mais do que atendimento no contraturno escolar. As 120 crianças e adolescentes, com idades entre 6 e 15 anos, participam de oficinas de música, culinária, capoeira e atividades esportivas. A alimentação oferecida diariamente também é motivo de orgulho. “A nossa alimentação é o carro-chefe. A música também é uma paixão deles. Ver o brilho nos olhos das crianças participando das atividades é gratificante”, menciona.

A trajetória, porém, também foi marcada por desafios. As enchentes de 2023 destruíram praticamente toda a parte inferior da entidade. Em 2024, uma nova inundação voltou a atingir o espaço. Com apoio da comunidade, doações, emendas parlamentares e recursos obtidos junto a vereadores, a instituição conseguiu reconstruir os ambientes. “Foi um momento muito difícil, mas conseguimos reerguer tudo. Hoje temos uma estrutura muito melhor do que antes.”

Educação como caminho para transformar o futuro

Uma das iniciativas que mais emociona Mara começou em 2025. A equipe da AME decidiu preparar adolescentes para o processo seletivo do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul), em Lajeado. Os jovens passaram meses estudando provas de anos anteriores, realizando simulados e recebendo acompanhamento da equipe.

O resultado superou as expectativas: dos cinco estudantes inscritos, quatro foram aprovados. Duas meninas ingressaram no curso de Administração e dois meninos iniciaram o curso de Automação. “Foi uma emoção enorme. Todo mundo chorou. Os pais agradecem até hoje.”

Como muitas famílias não possuem condições financeiras para custear transporte e demais despesas, a iniciativa é mantida com recursos obtidos em eventos beneficentes, especialmente na tradicional Festa de São João da AME, além das doações da comunidade, o auxílio mensal do município e demais recursos conquistados.

Muito além da educação

Fundada em 1985, inicialmente em salas cedidas pela APAE, a AME nasceu para combater a desnutrição infantil em um período em que o bairro Navegantes enfrentava altos índices de vulnerabilidade social. Em 1988, ganhou sede própria. Hoje, a instituição é vinculada à assistência social e desenvolve um trabalho que vai muito além do atendimento no contraturno escolar.

Com uma equipe formada por 11 profissionais, acompanha de perto a realidade das famílias, verifica a frequência escolar, auxilia na realização das tarefas, busca garantir alimentação adequada, roupas, calçados e materiais escolares, além de atuar na proteção integral das crianças e adolescentes. “Nós temos um olhar diferente. Nosso papel é proteger, cuidar e acompanhar cada família. Quando percebemos alguma dificuldade, buscamos entender o que está acontecendo e encontrar soluções.”

Para Mara, a AME funciona como uma grande família. “A nossa estrutura lembra uma casa. Aqui todo mundo trabalha junto. Quem entra dificilmente quer sair, porque precisa gostar do que faz e se comprometer com essa missão.”

Liderança construída pelo exemplo

Ao longo da carreira, Mara encontrou inspiração em mulheres que dedicaram suas vidas ao próximo, como Lúcia Moresco, ex-presidente da AME, lembrada pela generosidade e pelo trabalho voluntário. “Eu sempre a admirei muito por ser uma pessoa extremamente bondosa”. E a Valéria de Castro Caldas, que continua contribuindo com a entidade. “Uma pessoa maravilhosa, que se dedica e faz um trabalho voluntário fenomenal”.

Mara acredita que a presença feminina nos espaços de liderança faz diferença.”A mulher tem um olhar muito voltado ao cuidado, à atenção e à proteção das pessoas. Temos capacidade de liderar, de administrar várias responsabilidades ao mesmo tempo e de enxergar situações que muitas vezes passam despercebidas.”

Apesar dos avanços conquistados pelas mulheres, Mara considera que ainda existem desigualdades importantes. “Precisamos ser valorizadas pela nossa capacidade, e não pelo nosso gênero. Ainda há situações em que mulheres exercem a mesma função que os homens, mas recebem menos. Também precisamos ampliar a participação feminina na política e nos espaços de decisão”, comenta.

Um legado construído com amor

Ao falar sobre o futuro, Mara fala do sentimento que leva diariamente para o trabalho. “Sou extremamente realizada. Não existe alegria maior do que ver uma criança crescer, estudar, seguir o caminho certo e construir uma boa vida.”

Ela acredita que o maior legado que pode deixar não está apenas na estrutura física da entidade, mas nas pessoas. “Ninguém é melhor do que ninguém. Honestidade, respeito e autenticidade são valores que precisam estar presentes em tudo o que fazemos. Eu procuro fazer aquilo que precisa ser feito, sem me preocupar com cargos ou funções.”

Às mulheres, deixa uma mensagem carregada de significado: “Aprendi com o tempo que precisamos nos valorizar. Como mulheres, mães, avós, esposas, profissionais. Precisamos reconhecer o nosso valor e acreditar na nossa capacidade.”

Texto e foto: Gisele Feraboli

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